quarta-feira, 17 de março de 2021

O poeta, o pianista e o guardador de carros

                                    

Romeu, agora com 70 anos, entre Vinicius e Johnny

Por FERNANDO LICHTI BARROS

O porteiro Gunga Din estava de bom humor. Deixou o guardador de carros  transpor os nove ou dez metros de corredor para espiar o que se passava lá dentro.

O menino tinha 15 anos. Chamava-se Romeu. Romeu Venancio. Ele se encostou à parede e viu por dentro a boate Cave, na Rua da Consolação.

Casa cheia, esfumaçada, um templo frequentado por boêmios, artistas da bossa nova, do iê-iê-iê, gente da televisão, gente endinheirada ou nem tanto, tiras, jornalistas e um representante do Exército da Salvação, entre outras criaturas da noite.

Com o copo na mão, Vinicius de Moraes sai de uma das mesas, caminha até o pianista – era uma canja de Johnny Alf – e em voz baixa canta “Formosa”. Johnny ouve uma primeira vez, e na segunda estende um acolchoado de belos acordes para o samba, ainda inédito em disco naquele ano de 1965.

Romeu deixou a boate, esperou pelos trocados dos donos dos carros, e já amanhecia quando foi para a estação do Brás. Daquela vez ele não passaria o dia perambulando pelo Centro, não cochilaria por algumas horas sob o palco da Bon Soir, na Praça Roosevelt, nem tentaria uma vaga de figurante na TV Excelsior.

Queria reter na memória a cena, a música, o silêncio incomum feito pela plateia durante o presente oferecido por Vinicius e Johnny.

Tomou o trem de volta para casa, um barracão em Guaianases. Da janela avistou os campos de futebol da Zona Leste, e não lhe saia da cabeça aquela canção, a doce lembrança de que carinho não é ruim.


Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Quarteto em Cy, e Conjunto Oscar Castro Never -

 


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