sexta-feira, 22 de julho de 2016

Uma sanfona contra a merreca

Por FERNANDO LICHTI BARROS

Asa Branca uma, duas, dez, vinte vezes. Pode pedir que Nivaldo toca, não se queixa e nem fica bravo. “Se braveza valesse, Lampião tinha ficado rico”, diz ele.

O baiano de Inhambupe acorda bem cedo em São Mateus, na zona leste de São Paulo, pega a sanfona Hohner preta, vai para o ponto de ônibus e segue ao encontro dos parceiros Zé Vieira e Daniel, cearenses do Cariri.

No Largo da Batata, em São Miguel, Mauá, numa praça qualquer, por volta das dez da manhã eles cobrem a cabeça com chapéu de vaqueiro e se transformam no Trio Beija-Flor Nordestino.

Acompanhada por triângulo e zabumba, a sanfona chora durante cinco ou seis horas, a não ser que uma chuva encurte o espetáculo. Dá-lhe baião, dá-lhe xaxado, samba, vá pedindo que eles atendem. Só não venha com o tal do funk. “Isso é música sem origem”, fala Nivaldo, de 70 anos. 


 Um ano mais moço que o ex-prensista Zé Vieira e três mais velho que o ex-ajudante geral Daniel, ele trabalhou na construção civil até se aposentar. O  salário liberado pelo INSS é tão esquálido, tão diminuto que Nivaldo recorre a um único gesto - aperta o indicador contra o polegar da mão direita – para traduzir a merreca.

Mas a sanfona, companheira desde a infância, não lhe falta numa hora dessas. Com Daniel e Zé Vieira, recolhe da caixa de papelão deixada na calçada até R$ 240 por dia. Às vezes a arrecadação aumenta. E, se a sorte estiver mesmo de plantão, pode se aproximar uma boa alma e perguntar:

- Toca uma de Dominguinhos?



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