terça-feira, 5 de julho de 2016

Mazinho: aquele solo no LP de Hermeto



Por FERNANDO LICHTI BARROS 

Hermeto Pascoal gravou em 1970 com Miles Davis e Airto Moreira nos Estados Unidos e, de volta a São Paulo, retomou a rotina de músico da noite. 

Estava no local de trabalho - a boate Stardust, no Largo do Arouche - quando apareceu por lá o percussionista Anunciação com um rapaz de poucas palavras. 

Era o saxofonista Mazinho, aos 22 anos dono de substancial experiência, adquirida desde que na infância juntou-se à trupe do Circo Rosário para tocar na companhia do pai e dez irmãos.

Conversaram, se deram bem, acertaram dias de ensaio com o grupo que Hermeto organizava - ele, Anunciação, Bola, Hamleto (saxes e flautas), Alberto (contrabaixo), Nenê (bateria e piano) e, agora, Mazinho. Pela primeira vez o músico alagoano protagonizaria shows anunciados nas fachadas de auditórios em São Paulo, Rio, Curitiba e outras grandes cidades brasileiras.

Só muitas apresentações depois, em 1973, a turma entrou no estúdio Eldorado para registrar A música livre de Hermeto Pascoal. Finalmente uma fábrica de discos, a Polygram, estamparia com destaque foto e nome do multi-instrumentista na capa de um LP.

Numa terça-feira de janeiro, depois de gravar Carinhoso, eles se reuniram para ouvir o resultado. Todos gostaram - menos Mazinho.

- O improviso não saiu legal. Quero gravar de novo - ele disse. Sem problema: Rubinho Barsotti, baterista do Zimbo Trio e produtor do LP, marcou nova sessão para o dia seguinte.

A quarta-feira amanheceu ensolarada. De calça jeans, camiseta branca e tênis, Mazinho carregava a tiracolo uma bolsa de couro enfeitada com franjas e, na mão direita, o sax alto que na véspera deixara repousando num canto ao voltar para casa. Às 9h30, a poucos metros da Estação da Luz, desceu de um ônibus vindo da Água Fria, bairro da zona norte paulistana, onde morava com a família.

Caminhou pelas ruas do Centro até chegar ao estúdio, perto da esquina das avenidas São Luiz e Consolação. Com Hermeto e os companheiros, começou a tocar o clássico de Pixinguinha e João de Barro.

Aos 2m56 de gravação veio o solo. O saxofonista não pensava, apenas se deixava levar por uma energia estranha, vertiginosa, um mistério qualquer que depois o faria matutar se quem estava ali era mesmo ele, Waldemar Antonio Justino, nascido em agosto de 1951 na cidadezinha de Fernando Prestes, encravada à beira da rodovia Washington Luiz, no interior de São Paulo.

Era, sim.

A música livre de Hermeto Pascoal - 02 Carinhoso - YouTube

https://www.youtube.com/watch?v=Ap8MYsCUYpc

5 comentários:

  1. Parabéns, Fernando! Além da pesquisa sobre pérolas de nossa música popular, nos dá o prazer de ler um texto primoroso.

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  2. Parabéns meu irmão Mazinho. Você é um exemplo à ser seguido. O problema é ter um talento musical à altura! hehe.

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  3. Estou muito feliz em poder tocar ao lado de um musico do naipe do Mazinho.
    Muito obrigado por compartilhar o seu talento conosco.

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