domingo, 4 de setembro de 2022

Entre jazzistas e pés-de-valsa

Por FERNANDO LICHTI BARROS 

Ilustração: Caco Bressane

Lá vai Mário Edson, alto, magro, pensativo, caminhando pelo Centro. Da Avenida São Luiz enxerga a Galeria Metrópole, onde tocou nos últimos quatro anos; atravessa a Consolação e, na Martins Fontes, diminui o passo.

Não, definitivamente não é justo estar desempregado o músico entusiasmado, o professor que levou a um programa de tevê o coral da escola estadual da Vila Matilde para cantar Viola Enluarada com Os Cariocas, o iconoclasta que invadiu com um samba-exaltação o ultrabossanovista Juão Sebastião Bar.

Mário anda até a Rua Avanhandava. Entra no Jogral, reinaugurado neste ano de 1968, e pergunta se precisam de pianista. Precisam. No dia seguinte, ele estreia. Com o seu quarteto, passará a esquentar as noitadas ao lado do Trio Mocotó, Manezinho da Flauta, Adauto Santos, Leo Karam e outros artistas. Na porta, filas; na plateia abarrotada, estrangeiros atentos ao suingue local. Aparecem Erroll Garner, The Single Swingers, Michel Legrand e, sem negar-se a dar canjas bem temperadas, Oscar Peterson e Sarah Vaughan.

Natural que episódios assim aconteçam no Centro, o chão de encontros, trocas e fusões. Dizzy Gillespie que o diga. Em 1961, ele recebe cumprimentos e elogios após a apresentação do mais puro bebop no Teatro Record, mas quer mesmo é conhecer o teatro popular de Solano Trindade. Desejo atendido: no auditório da Rádio Eldorado, aonde é levado, ele fotografa o espetáculo e não resiste à percussão e à coreografia: integra-se ao maracatu, à batucada, ao frevo do grupo de Embu das Artes.

Ilustração: Caco Bressane
Não se preocupem os jazzófilos que, por uma ou outra razão, não conseguiram acompanhar Dizzy em sua passagem por São Paulo. Ele voltará. E, se fazem questão de ouvir som com sotaque norte-americano, nem precisam esperar. O saxofonista Herb Geller, que veio para cá com a orquestra de Benny Goodman, desgarrou-se. Está tocando no Stardust, na Praça Roosevelt.

Divirta-se, Herb. Caso seja acometido por tremores decorrentes de um sentimento nostálgico, procure o antídoto no Teatro de Arena. Toda segunda-feira é dedicada ao jazz. Lá, aproveite para observar os colegas brasileiros. A maioria cursou a escola dos bailes, dos discos, das retretas, do circo, das ruas, formação que os capacita a enveredar por todos os gêneros com personalidade e valentia. Observe aquele rapaz, o Carlos Alberto Alcântara: foi tintureiro, passou do cavaquinho e do banjo para o sax, fez bailes no interior do Paraná e de São Paulo com orquestras regidas pelo pai, e agora, ainda na faixa dos trinta anos, escolhe notas com a sensatez de um veterano.

Muitos outros músicos de cancha têm histórico de luta por aprendizagem e imersão no trabalho. Bauru, baritonista da orquestra de Dick Farney, tomou as primeiras lições com Dito Dezoito, coveiro e clarinetista em Potirendaba, no interior do estado. Odésio Jericó, antes de ser trompetista disputado pelas big bands, tocou em procissões e festas cívicas com a Philarmônica 21 de Setembro, em Petrolina, Pernambuco. Jovito abandonou sua especialidade, o bongô, e com a cara e a coragem tornou-se baterista na boate Lancaster. Mazinho, o menino de 15 anos que deixa boquiabertos os frequentadores de boliches e inferninhos com solos de sax alto, profissionalizou-se no Circo Rosário, na região de Ribeirão Preto.

Ilustração: Caco Bressane

Falta rememorar o caminho percorrido pelo trombonista Bil. Ex-sapateiro e lavador de cavalos, ele foi discípulo do maestro Brasiliano, da banda de Macaparana, em Pernambuco. Em Limoeiro, aperfeiçoou-se com Cazuzinha, pai de Severino Araújo; trabalhou em cabarés, em emissoras de rádio de Recife e João Pessoa; gravou com Jackson do Pandeiro e excursionou com o Circo Garcia. Em 54, desembarcou em São Paulo, contratado pela orquestra Clóvis Ely, atração do Clube OK, na Rua Conselheiro Nébias. Era um dos vários salões de dança do Centro.

No ano anterior, um deles, o Clube Elite 28 de Setembro, foi destruído pelo incêndio que matou 53 pessoas durante o Baile de Santo Antônio. Absorvida a tragédia, as pistas do Chuá, Caçamba, Cuba, Tropical, Lilás e várias outras continuaram cheias. Pé-de-valsa que se preze até hoje calça um pisante lustroso para dançar o puladinho no Som de Cristal, na Rego Freitas. Se do nada o tenorista Adolar tirar um Body and Soul emocionado, melhor: colam-se corpos e almas, em resposta à maravilha que, na mesma medida, a noite proporciona na gafieira ou no Teatro Municipal, onde Elizeth Cardoso, esplendorosa, canta Villa-Lobos, onde em cada arranjo Duke Ellington reafirma apreço à música, onde o Carnaval eclode com a orquestra de Osmar Milani.

Bil, o trombonista, por anos atuou em big bands como a de Milani. Lidera um naipe que faz até quatro sessões de gravação num mesmo dia. Pode estar, agora, num estúdio com a Banda Tropicalista de Rogério Duprat, divertindo-se em interpretações caricatas de clássicos do cancioneiro. Ou, com o maestro Portinho, registrando a base da balada em que Nelson Ned, certeiro, lembra que tudo, tudo passará. Sábio Ned. 

E, se nada é para sempre, que do efêmero se faça um chá-chá-chá. No Avenida Danças, ali na Ipiranga, quando no palco sobe a cortina vermelha, a orquestra começa a tocar.

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Da série Música no Ar: Um passeio pelo Centro na década de 1960, de Fernando Lichti Barros, publicado pelo Sesc 24 de Maio.

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