domingo, 4 de setembro de 2016

Oliveira e Seus Black Boys: twist na ditadura

Por FERNANDO LICHTI BARROS


A cinco dias do primeiro desfile em comemoração à Semana da Pátria após o golpe de 1964, o jornal Diário da Noite, de São Paulo, publicou uma nota que submeteu cinco músicos negros a momentos de horror. 


O texto enviado pela sucursal do ABC acusava o grupo Oliveira e Seus Black Boys de ter tocado, durante um baile realizado em Santo André, o Hino Nacional em twist, um ritmo derivado do rock, “num verdadeiro atentado aos mais comezinhos princípios cívicos”. 
Dia 10 de setembro, o secretário da Segurança Pública, general Ivanhoé Gonçalves Martins, encaminhou à direção da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) um recorte contendo a notícia do Diário da Noite.

A Ordem dos Músicos entrou na dança. Intimou, em ofício assinado pelo presidente Wilson Sandoli, a turma de Oliveira a depor em processo “ético profissional” instaurado para apurar o caso, de antemão considerado pela entidade como “pleno desrespeito à Pátria e às leis em vigor”.

O não comparecimento dos músicos, prosseguia a intimação, levaria a Ordem a recorrer “às autoridades policiais quer civis ou militares”.

A tarefa de fazer a avaliação técnica do episódio coube a dois veteranos profissionais, Antonio Torcheia e Osmar Milani. Depois de ouvir as explicações dos “denunciados” e a execução da “partitura incriminada”, eles sairam em defesa dos colegas. Assinaram, com Sandoli e o consultor jurídico Wilson Santos, parecer de 26 linhas que concluiu: não houve o que noticiara o Diário da Noite.

Tratou-se, segundo eles, de um mal-entendido provocado pelo solista que, “levado pelo entusiasmo”, improvisou durante um compasso. Tudo teria ocorrido “de forma indefinida, capaz de ser alimentada mais pela sugestão que pela realidade”.

Não havia, portanto, “culpabilidade” para enquadrar os músicos “nas penas cominadas no Código de Ética Profissional e da Justiça Militar”. Anexado ao parecer, a OMB encaminhou ao DOPS os nomes e endereços dos músicos de Oliveira com uma foto do conjunto.

     
Tarde demais. A essa altura o caso adquiriu desdobramento ainda mais assustador. Entrou no caso o II Exército. O chefe do Estado Maior, general Durval Campello de Macedo, enviou ofício à Pasta da Segurança, que por sua vez despachou o material para o DOPS.

No documento, o general solicitou “os bons ofícios dessa Secretaria de Estado no sentido de que este QG fosse informado quando à veracidade da ocorrência para as providências decorrentes”.

Um policial esteve no Grêmio Recreativo das Nações, que havia promovido o baile. Também foi ouvir o guitarrista Demercilio Viana, autor do solo que despertou a indignação do redator da nota veiculada pelo jornal.

Conclusão: o conjunto Oliveira e Seus Black Boys apenas citou, num improviso feito por Demercilio, o standard norte-americano American Patrol, cujos primeiros compassos têm certa semelhança com o Hino Nacional.

Com um acorde perfeito o guitarrista, ex-cabo do Exército, apresentou ao policial o argumento definitivo:
- Não ia macular um patrimônio que eu mesmo ajudei a zelar.

No dia 2 de outubro, a Folha de S. Paulo publicou nota para jogar água na fogueira provocada pelo Diário da Noite, que “trouxe para Oliveira e seus rapazes prejuízos e preocupações”. 

Tudo por causa de um twist.

Leia mais no livro "Do calypso ao cha-cha-chá - Músicos em São Paulo na década de 60", de Fernando Lichti Barros, autor desde blog. 

https://www.youtube.com/watch?v=aI_PRBusZWg


8 comentários:

  1. História deliciosa... E adequada aos tempos que chegaram.

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  2. Que trababalho incrível Fernando! Enriquecedor!

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  3. Muito Legal Fernando!
    Parabéns pela oratória maravilhosa!
    Estou compartilhando na minha página.
    Abraços!

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  4. Esse meu pai o senhor Demercilio.....foi bem articulado...se livrou e livrou os demais de uma ''prisão militar''
    Por essas e tantas que te amo, pai!

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  5. Infelizmente, ele partiu dia 04/08/2018....R.I.P.
    Te amarei para sempre!

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  6. Me lembro dessa celeuma. Dancei em Taquaritinga ao som de Oliveira e Seus Black Boys. Dom Salvador fez parte do grupo e acabou casando com Mariá, a crooner da banda.

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  7. que registro incrivel, obrigado por compartilhar, acho que neste periodo dom salvador ja tinha ido ao rio tocar com o copa trio de manuel gusmao e dom um romao...

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