quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Bobby de Carlo e o canto da corruíra

Por FERNANDO LICHTI BARROS

O canto de um pássaro faz Roberto voltar no tempo. Ele retrocede quase 60 anos e se enxerga adolescente, despertando com o trinado da corruíra no bairro paulistano do Canindé.

Agora, o bichinho voltou a aparecer por lá. Faz solos melodiosos. E Roberto, de repente, retorna aos 15 anos, à época em que ao cotidiano bucólico acrescentava pitadas de  roquenrol. Era uma novidade vinda dos Estados Unidos, logo reproduzida no Brasil por cantores e conjuntos iguais àqueles de que Roberto participou – The Vampires e The Jet Blacks.

Na esteira da influência norte-americana, levado para a gravadora Odeon por Tony Campelo, Roberto gravou Oh! Eliana em 78 rotações e virou Bobby. Bobby de Carlo.

Cantar era bom, mas tocar era melhor. Tocar violão, guitarra, contrabaixo com o saxofonista Nestico e o pianista Wanderleyzinho, fazer bailes, excursionar de navio para o Amazonas, a Bahia, Argentina e Uruguai com o grupo Bossa News. Tocar jazz, samba-canção, bossa-nova, tudo o que fosse preciso para acompanhar ao baixo acústico, com os dedos protegidos por tiras de esparadrapo, o pianista Mario Edson no bar Estão Voltando as Flores, no subsolo da Galeria Metrópole.

Havia em Bobby, também, a sede de aprender. Era o que o levava ao bairro do Belenzinho, onde morava o instrumentista, cantor e arranjador Zé Bicão. Ou, ainda, à Casa Bevilacqua, no centro da cidade, onde Johnny Alf defendia algum dinheiro escrevendo partituras para impressão e venda.
 Disa: presente de Johnny Alf
- Você tem um bom ouvido - observou certa vez Johnny, antes de oferecer ao rapaz um presente, a canção Disa, de sua autoria, escrita a lápis numa folha de papel.

Foi a musicalidade notada pelo precursor da bossa-nova que proporcionou a Bobby a coragem de tocar de improviso com Dick Farney e Sadao Watanabe, no Clube dos Amigos do Jazz, o Camja. 

Lá mesmo, também por acaso, ele acompanhou ao contrabaixo o pianista Tenório Jr, uma referência do samba-jazz. Tornaram-se amigos.

Enquanto isso, fora dos limites do Camja, a Jovem Guarda desfrutava de imensa aceitação popular. Bobby resolveu surfar naquela onda. Em 1966, assinou contrato com a Rozenblit, fábrica de discos sediada em Recife.

Escrito por Bitão, guitarrista de Os Megatons - grupo que o acompanhou na gravação-, Tijolinho, um iê-iê-iê prenhe de candura, fez dele novamente um cantor. Um canário, como já diziam os músicos nas tantas noites que Bobby atravessou em bailes e boates.

Canário, corruíra. Tem passarinho voltando ao Canindé.                                                    


TIJOLINHO BOBBY DE CARLO - YouTube


https://www.youtube.com/watch?v=vGH387-1e9k









  

Um comentário:

  1. Fernando, seu site é fantástico, continue e vamos encontrar algum desses personagens pra um documentário... to a disposição

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